- Exórdio para um tempo estúpido -
Estudava no 2º ciclo, numa escola da cidade. Numa das aulas, numa turma dividida a meio, alguém, do lado de onde me encontrava (a sala era dividida por uma parede), fazia, incessantemente, barulho. A professora, que se encontrava, momentaneamente, do lado oposto, veio ao nosso e perguntou-me, directamente, talvez por ter sido o primeiro estudante que lhe apareceu à frente, quem estava a prevaricar.
Não lho disse. Quem quisesse que se acusasse. A recusa valeu-me um puxão de orelhas.
Anos mais tarde, no secundário, noutra escola da cidade, duas situações, distintas, porém equivalentes: julgo que no 10º ano, uma professora queria obrigar-me a cantar, perante a turma, uma música, numa aula de uma língua estrangeira. Não invoquei a minha total incapacidade ao nível do canto (eu sempre fui péssimo, e ter noção ajuda). Recusei porque sou e sempre fui tímido (ao ponto de sentir vergonha da minha existência). Sou do género que bloqueia, mesmo. Não fui nem sou talhado para palcos, por muito pequenos que sejam. É uma espécie de objecção de consciência orgânica/subconsciente.
Essa 'nega' teve como consequência um recado na caderneta de aluno.
Num dos anos seguintes, nessa mesma escola, caiu-me, a certa altura, um bilhete em cima da mesa. Era um recado qualquer. O professor, que reparou no sucedido, pediu-me para que o entregasse. Não o fiz.
Essa acção acabou por fazer com que o professor me expulsasse da aula. Só no corredor é que li o que estava escrito no papel (uma piada sobre o professor).
Para que é isto interessa? Até nem interessa para nada, mas pode interessar. Já lá vamos.
CONCLUSÕES EM JEITO DE POSTURA PERANTE A VIDA (OU QUALQUER OUTRA COISA, NO FUNDO)
Eu penso por mim e assumo todas as palavras que escrevo ou digo. Se algum dia tiver de levar um tiro ou aparecer numa valeta (que seja a do Cano de Baixo, de onde sai o cortejo do Pinheiro, por favor), pois que seja.
Assumo o que é dito ou escrito por mim (e não o que dizem que eu disse).
Vi, li e ouvi sobre o estado de emergência. O medo instalado pela comunicação social, no seu todo, mas não apenas, fez com que nos engolisse o tsunami do pânico. Desde Março que assumimos que nos espera(va) uma hecatombe sem precedentes, mas nem por isso foram tomadas medidas de fundo: decisões responsáveis de quem foi escolhido para as tomar. Em vez disso, sacudiu-se o grosso da questão para os cidadãos (e suas culpas ou potenciais faltas).
Há entendidos que nunca são tidos em conta, sobretudo aqueles que vão em sentido contrário ao que tem sido a norma. A estes, colam-lhes rapidamente a etiqueta negacionista na lapela ou na testa. Já não há meio termo. A maioria (e não todos) que canta a ladainha adoptada, e que dizem, aqui ou acolá, que já se esperava uma pandemia destas há algum tempo, andaram, concluamos, a papar sono. Se era expectável, como é que somos/fomos apanhados assim?
Valha a verdade, parte da comunidade médica/científica tem dado, em grandes espaços, uma pindérica imagem de si própria, com alguns dos seus membros, mais que o expectável, a exibirem o comprimento das pilinhas, em busca de protagonismo, numa competição de latrina digna do tempo de escola primária:
- Ah, a minha é maior que a tua.
Não são diferentes, no fundo, de qualquer outra actividade. Neoliberalismo de classe.
Eu defendo que se deva proteger os mais velhos e os mais vulneráveis, mas isso não implica menorizá-los e tratá-los com uma condescendência e um paternalismo repugnantes.
É que, parece que não, referimo-nos à ou às gerações que fizeram, no caso de Portugal, a revolução de Abril.
E Abril mostra-nos uma realidade paralela, mais de quarenta anos depois: talvez por resquícios do subconsciente, acha-se aceitável o apontar de dedo, a denúncia, a queixinha, a nojenta imposição da própria norma aos outros, sem se procurar saber o que determina o escape. A quarentena não é igual para todos, e há muita gente com muito mais a perder do que outra. É por isso que, se calhar, a minha noção de heróis (mal vai o mundo quando deles precisa) é um bocado (grande) diferente. Para mim, não há actividades “essenciais”. Ou antes, ou são todas ou não é nenhuma, e isso é uma realidade que está bem longe da realidade que nos é ditada.
Veremos o que a nova PIDE, os cidadãos que nunca viveram numa ditadura mas que esperam ansiosamente, sem o saberem, por uma, terá a dizer sobre a fome, o desemprego, a quebra do SNS e das urgências (com todos os outros problemas que ficaram por resolver), a alta taxa de suicídios e mortalidade em geral que o confinamento agudizará.
Com isto, não quero, de modo algum, desvalorizar o trabalho de muita e muita gente, que dá o que tem e o que não tem.
Uma palavra, também, para a classe política, a nível local: sempre tão apupada e criticada, de forma depreciativa, tem feito o possível e o impossível, sendo que as poucas medidas acertadas que se têm visto nasceram, sempre, de iniciativas locais. Em vão? Não sei, mas quero acreditar que não. Sei bem da dificuldade dos políticos. A sociedade olha para esta classe um pouco à imagem do que Gil Vicente fez em “Auto da Barca do Inferno”: criar personagens-tipo. Assim, para a sociedade, o político é mau (só porque é político). Curioso que outras profissões beneficiem do inverso (é bom porque é tal), como se os defeitos/características menos favoráveis, inerentes à condição humana, desaparecessem em virtude do mester ocupado. Mas...
O poder central (e seus apêndices) é um desastre em toda a linha. Não se preparou para a época das infecções respiratórias (como foi apanágio de quase todos os governos que antecederam este, esquecendo/desvalorizando o SNS, não corrigindo os problemas estruturais dos lares, ignorando, propositadamente ou não, os declives sociais que possibilitam a escalada do populismo e do ideário fascista), andou em bazófia desmedida, e agora, com as calças na mão, vai culpar o povo de tudo e do seu contrário, apoiado em medidas impraticáveis.
O darwinismo social acentuar-se-á: as grandes empresas subsistirão, aumentando o monopólio, e as pequenas e médias desaparecerão, ou então endividar-se-ão ‘ad aeternum’.
Se se acha que o conceito de liberdade pode conviver com o acto de prender pessoas em casa, então estamos condenados (e, se calhar, merecemos o que por aí vem).
A minha geração, a da década de ’80, herdou, directamente, as liberdades de Abril, conquistadas por gerações que nos antecederam e que privaram com a escassez de quase tudo (a começar pelos direitos). As gerações que se seguiram idem. Tento colocar-me, embora não consiga, no papel de quem se rebelou, naquele tempo, genuinamente pensando num futuro mais democrático, e assiste, agora, com remorsos e incredulidade, à perda de liberdade individual e colectiva.
Estamos entregues a um sistema de segurança social e a uma AT que nos trata como culpados até prova em contrário (numa retorcida interpretação do estado de direito), e que tratarão de asfixiar, ainda mais, quem tem poder de iniciativa. É muito bonito falar na obrigatoriedade de não se despedir, mas a maior parte dos patrões (os pequenos e médios) é tão refém quanto os seus funcionários. Escuso-me a comentar a terceiro-mundista condição dos trabalhadores independentes/empresários em nome individual.
Abomino demagogia de esquerda tanto quanto a de direita.
Toda a gente está a sofrer com este fenómeno. Sou suficientemente lúcido para não prejudicar os outros, mas, enquanto andar por este mundo na plena posse das minhas faculdades, serei eu a calcular os riscos das minhas acções. Não delego essa premissa a ninguém.
Não tenho qualquer medo do vírus. Dispenso imposições de quem acha que sabe mais sobre o que é melhor, ou não, para mim. Reafirmo que sei o que devo fazer para não prejudicar ninguém. E basta-me.
O Eusebiozinho (de “Os Maias”) poderia encontrar muitos equivalentes nos dias que correm.
Acredito que alguns canais e serviços informativos deveriam ser condenados por crimes contra a humanidade, pela histeria e disseminação do medo em massa.
Apesar de tudo, sou um gajo optimista. Ou resiliente. Bufo é que não.

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